Caso de Vidas Passadas

Dia 24 de abril de 2001, chega ao meu consultório uma moça de aparência autoritária e rígida, mas percebo medo e insegurança em seus olhos.

Ela senta e começa a falar sem parar, movimentando muito as mãos. Conta que ouviu falar de curas milagrosas feitas pela Regressão de Memórias e que não sabia se acreditava muito nisto. Expliquei que esta visão depende muito da forma como encaramos a vida, afinal como dizia Einstein: “Existem duas maneiras de encarar a vida, uma delas é acreditar que milagres não existem, a outra é acreditar que tudo é milagre”.

Particularmente prefiro acreditar que tudo é Milagre, e toda vida faz parte de um plano inteligente e bem elaborado, como em um jogo em que se vai ganhando pontos à medida que avançamos ou que seremos forçados a voltar ao início e repensar nossa estratégia para continuarmos jogando.

Elisandra* conta que está sozinha e que não quer ter filhos, optou por sua carreira, por seus estudos e acima de tudo por sua liberdade. Apesar da aparente segurança demonstra grande ansiedade ao falar no assunto. Pergunto se ela se imagina casada algum dia, ou com filhos, e ela responde que na verdade sente calafrios quando pensa nisso. Conta que ultimamente sua ansiedade aumentou muito e que tem a impressão de que alguma coisa ruim está para acontecer a qualquer momento. Sente como se tivesse, de uma hora para outra, perdido o controle sobre sua vida. Tudo acontece de forma desordenada e em grande intensidade. Se sente perdida e pela primeira vez sozinha de verdade. Não quer se sentir assim porque sempre foi decidida e segura, sempre teve a sensação de poder fazer escolhas e definir o futuro. Teve relacionamentos significativos e saiu ilesa de cada um deles.

Percebo que tem medo de se entregar e perder o controle da situação. Converso com ela sobre isso, ela concorda, acha razoável. Diz que veio de uma família desfeita muito cedo, abandonada pelo pai, deixou de acreditar nos homens e prefere terminar antes de ser abandonada de novo. Explico que às vezes o Universo conspira para resgatarmos alguns assuntos pendentes e neste momento entramos em um “nódulo de energia”, uma grande quantidade de energia a nossa volta que nos liga a algum fato do passado, gerando conflitos internos, sonhos estranhos, sensação de medo e insegurança, lembranças ou insights “irreais”, ou melhor, que não fazem parte deste tempo… Pergunto a ela se está tendo sonhos estranhos, e ela me diz que na verdade são sonhos muito reais, torturantes até, que quando acorda demora a perceber que foi apenas um sonho.

Percebo que ela está em um nódulo de energia, e que é a hora propícia para fazermos a regressão.

Inicio o processo pedindo que ela se recoste na cadeira e relaxe completamente. Vou inserindo imagens e palavras que vão conduzindo-a a uma consciência mais profunda. Peço que retorne à sua infância e pergunto enfim onde ela está:

__ ” Estou em casa, ora”.

Pergunto como é sua casa, peço que descreva com detalhes:

“__Pequena, de madeira, quente. Tem um terreno bem grande nos fundos.”

Pergunto em parte da casa está, e se está sozinha.

__Não estou com a Binha na área dos fundos.

Quero saber quem é a Binha e o que ela está fazendo neste momento:

“__É a cachorrinha da vizinha…. ela vem me visitar todos os dias. É branca e peluda.Nós estamos brincando de pegar”

Pergunto se ela se sente feliz e por que:

“__Sim…. (sorri) Meu pai veio me ver.”

De repente, começa a mudar a fisionomia e chora muito. Eu aguardo alguns instantes e por fim pergunto por que está chorando.

“__Meu pai está brigando com minha mãe. Por minha causa. Eu sou muito burra”.

Explico-lhe que é uma briga entre adultos e que ela ainda não compreende muito bem, que ela não é o motivo da briga, e que as pessoas têm dificuldades para comunicarem-se umas com as outras porque esperam sempre que a outra pessoa faça sempre o que nós queremos, e isto não é correto. Digo que precisa compreender que cada pessoa tem seu caminho próprio e que nem sempre duas pessoas que se amam vão seguir o mesmo caminho, mas isto não é motivo para desistir do amor. Devemos sempre apoiar a caminhada de quem amamos mesmo que não seja a mesma que a nossa. A mágoa e o rancor podem destruir a alma de alguém. Peço a ela que se distancie e analise a situação com sua Consciência Superior, faço a expansão de consciência. Pergunto o que ela vê agora:

“__ Duas pessoas que se amam muito, mas que não estão prontas para viverem juntas. A culpa consome o meu pai por isso ele prefere desaparecer. Sente-se fraco e acredita que não tem muito a oferecer para a filha. Não quer que a filha seja parecida com ele…”

Neste momento volta a chorar, porém mais calma.

Pergunto se consegue perdoar o pai agora. Ela demora a responder.

“__ Não sei. Mas não sinto mais raiva. É como se um vazio estivesse sentado em meu peito agora.”

Peço que ela respire fundo e faço a reprogramação mental para que ela consiga relacionar-se com outras pessoas. Para que enxergue a vida como o grande desafio que é e que perceba que é exatamente aí que reside a beleza da vida. Reprogramo sua coragem e auto-aceitação; faço uma nova expansão de consciência. Ela já se sente melhor, mas ainda tem muito que chorar para liberar uma mágoa guardada há muito tempo.

Explico-lhe que as crianças nessa idade costumam achar que o mundo existe por causa delas, possuem uma visão limitada e acreditam que tudo o que acontece de alguma forma está ligada a elas, ou para elas ou por culpa delas. Nesta fase os traumas podem fazer um grande estrago no desenvolvimento de suas personalidade e prejudicar o desenvolvimento de suas habilidades.

Ela diz não entender porque se sente diferente agora, pois, a imagem que viu é uma imagem que sempre esteve presente em suas lembranças, e que sempre soube que seus traumas tinham esta origem, então não percebe a diferença entre lembrar e fazer a regressão, mas sente-se aliviada pela primeira vez em muitos anos. Pergunto-lhe se chorava sempre ao lembrar deste fato. Ela me diz que às vezes chora, mas que nunca havia chorado com tanta intensidade.

Explico-lhe que a gente pode saber que existe uma nota de cem reais no fundo de uma gaveta, mas para poder fazer compras precisamos abrir a gaveta e retirar o dinheiro de dentro. É o que a Regressão de Memórias faz, abre as gavetas do subconsciente para ajustar o que está lá dentro.

Informei que, como estamos trabalhando com emoções, ela poderia desencadear outras lembranças, que estejam guardadas no mesmo nível de consciência.

Neste dia ela não sonhou, mas dois dias depois estava parada em frente à estante de livros quando teve uma sensação estranha, tipo uma vertigem, sentiu muito medo e sentiu-se cair em um buraco escuro. Ligou para mim muito assustada, falando muito rápido. Pedi que se acalmasse e me contasse com detalhes o que havia acontecido. Percebi, enquanto me contava que havia começado a ter insights e pedi que retornasse ao meu consultório.

Ela estava muito nervosa quando chegou, expliquei que isto é normal quando estamos trabalhando com regressões por expansão de consciência, pois quando a consciência se expande podemos ter insights de outros tempos relacionados ao problema pelo qual estamos passando agora.

Aproveitei o momento para fazer uma nova regressão. Pedi que ela fosse à época em que se viu caindo no buraco escuro. Para mim não foi surpresa alguma quando ela afirmou estar vivendo no ano de 1817.

__ ” Meu nome é Annah*, tenho 37 anos, sou a filha única de Joseph Ancara*, pesquisador. Tenho uma filha de 16 anos, que se chama Anya*. Meu marido foi embora porque não suportava ser mandado por uma mulher, eu não me importo. Vou ser pesquisadora como meu pai. Ele me leva nas viagens desde que eu tinha 7 anos , e quando ele se for eu vou continuar o seu trabalho”.

“Anya não gosta das viagens, quer conhecer cidades e namorar, acha que já está ficando velha e que nenhum rapaz de boa família vai querer casar-se com ela. Eu faço com que se cale. O que está falando é besteira. Qualquer rapaz iria querer se casar com a neta de um Ancara. Agora o que interessa é a nova pirâmide ao norte do México. Nós vamos para lá no próximo fim de semana. Anya está chorando no quarto, não quer ir à expedição. Quero que vá. Quero que seja forte como o meu pai.”

__ O que acontece então?

“Fomos para o México, meu pai ficou por mais dois dias. Vamos começar as expedições sozinhas, com a equipe.

Algumas horas antes de meu pai chegar encontrei uma abertura na parte superior da pirâmide, que parecia levar a uma caverna. Resolvi descer antes que meu pai chegasse e fazer uma surpresa pra ele.

Anya não quer ir junto, mas eu forço, pois quero que vá comigo.

Arrumo as cordas para descida. Ela desce primeiro e sua corda fica amarrada em mim, para que eu dê apoio a ela. Começamos a descer… é escuro… “

Ela pára de falar e sinto que está preocupada, pergunto o que está ocorrendo, ela reage, sua fisionomia é de preocupação.

“eu senti um solavanco na corda. … Meu Deus…”

Ela realmente está com muito medo agora peço que continue a contar o que está acontecendo.

“A pedra que sustenta a corda vai cair… “

Pergunto sobre a pedra.

“É uma pedra grande que está na entrada do buraco. Eu firmei a corda nela. Mas ela esta se soltando. Acho que vamos morrer. Eu peço pra Anya apressar a descida mas a pedra já está caindo… Meu Deus eu vou cair em cima dela…”

Ela começa a chorar muito, eu pergunto o que acontece, ela tem uma fisionomia de dor.

“Caímos… acho que quebrei a coluna, não agüento mais essa dor… Não consigo pensar em nada. Acho que vou morrer… tomara que eu morra rápido…. é muita dor. Está muito frio aqui embaixo.”

Pergunto sobre sua filha.

“Anya,… não consigo vê-la… muitas pedras caíram…. eu não consigo ouvir nada… só água correndo, pingando, não sei bem o que é…”

Ela começa a chorar muito agora.

” É culpa minha… é tudo culpa minha. Minha filhinha… eu não devia…”

Deixo que chore por um tempo e sugiro que vá até o momento de sua morte. Ela suspira fundo e relaxa novamente. Faço uma expansão de consciência e ela começa a entrar em estado de Paz novamente.

Trago-a de volta e pergunto sobre sua experiência. Ela me diz que sentiu muita culpa pela morte da filha, mas o que mais a alarmou na verdade foi o fato de não ter conseguido pensar na sua filha morrendo ao seu lado em função da dor que sentiu, e este fato era o que lhe proporcionava mais culpa.

Perguntei se por acaso ela conhecia um pouco sobre a cultura pré-colombiana, e ela respondeu que já ouvira falar, mas nunca foi boa em história. Trabalhei com ela durante mais duas terapias para reprogramar as culpas, o medo de ser mãe novamente, o medo de ter compromissos.

Mas, nas terapias seguintes, percebi que esta era apenas a ponta do iceberg. Ainda teríamos muito que pesquisar, como confirmei nos encontros seguintes.

Somos como camadas da cebola, você tira uma e em seguida aparece o que estava por baixo. Quanto mais fundo vamos mais forte (e ardido) é o sabor. Mas a verdade é que só nos deparamos com um problema quando estamos prontos para resolvê-lo, basta encontrar os meios certos para isto.

A terapia de regressão é apenas uma das muitas maneiras que se tem para resolver nossos traumas. O importante é ir sempre em busca do crescimento e do auto-conhecimento.

*Os nomes foram trocados por questão de privacidade